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Desde há cerca de quatro anos que o mês de Junho em Lisboa é sinónimo de fado no eléctrico 28, o mais turístico da capital. Fadistas, músicos e aficionados confraternizam num ambiente castiço e bairrista que chega a ser delirante. "Lindo!", gritam os passageiros, "é lindo!".
São quase 18h de quinta-feira, dia 1 de Junho, e há duas mulheres que esperam há quase uma hora na paragem junto ao Cemitério dos Prazeres que chegue o eléctrico 28 com fadistas a bordo. Só um dos vários eléctricos da carreira carrega consigo a magia e a alegria do fado e as aficionadas aguardam estoicamente sem dar sinais de desalento.
"Nunca faltamos", explicará mais tarde Maria Teresa Rodrigues, empregada doméstica. "Eu e as minhas amigas vimos sempre, faça chuva ou faça sol. Os meus patrões que me desculpem, mas às quintas é dia de fado no eléctrico e ao domingo o nosso passeio é este. No ano passado, não faltámos um dia." Para os músicos, é uma experiência. "No ano passado", conta o tocador de viola Carlos Carvalho, sorriso de veterano nos lábios, " eu e o Gentil Ribeiro [guitarra] nem nos ouvíamos um ao outro e quase não nos víamos. É por instinto."
José Beja, o homem que a EGEAC (Empresa de Gestão e Equipamentos de Animação Cultural de Lisboa) convidou para coordenar mais uma edição do Fado no Eléctrico 28, explica o fenómeno de popularidade: "As rádios e as televisões não têm tempo para passar esta música. Por isso, nós trazemos o fado até à população de Lisboa. Isto é feito para eles e com qualidade. Está a ver a Lola Diniz ali sentada? Fora daqui, só a ouvem no Café Luso!"
A partida dos Prazeres, cerca das 18h de quinta-feira, não podia ser mais caótica. Alguns fadistas trouxeram familiares e todos querem assegurar um lugar a bordo. Em breve, o 28 parece uma taberna castiça de Alfama. "Primeiro os coxos e os moídos!", grita uma mulher. Uma outra passa sacos pela janela e tenta marcar lugares. "Oh, minha senhora, não pode haver lugares marcados! Trouxe o seu neto? Já agora traga a sua família toda!", grita outra.
A confusão está instalada no 28. Cheio como um ovo e aquecido pelo sol de fim de tarde, o eléctrico carrega estudantes, viajantes ocasionais, músicos, fadistas e respectiva trupe de amigos e familiares, numa amálgama que leva tempo a sossegar. Entre os solavancos e a trepidação, José Beja abre os braços e procura fazer-se ouvir: "Atenção, meus senhores, muito boas vindas ao fado no eléctrico. Convosco vai ficar a voz de Augusto Robalo!"
O anúncio é saudado por fortes aplausos no eléctrico apinhado. Duas crianças já viajam em cima uma da outra. Um jovem de origem africana, boné e sapatilhas largas, espalmado entre outros passageiros, sorri e aplaude.
Tudo isto é fado "Tenho o meu corpo cansado de viver na solidão", canta Augusto, olhos fechados, óculos pretos presos ao cabelo encaracolado. "Sou companheiro da noite, faço dela a minha vida...", continua o fadista, num soluço sofrido.
O 28 já desce em direcção à Estrela, conquistado pelo fado, quando Fernanda Proença, de vestido preto e flor lilás ao peito, segura a mão esquerda num parapeito de Madeira e outra num varão e desabafa: "Ao fim de tantos anos de ser tua..."
Uma nova discussão rebenta lá à frente - "é que eu fui operada à coluna!" -, mas quem se importa? Tudo isto é fado. Fernanda sobe para cima de um banco para que a vejam melhor e canta: "Que linda és Lisboa dos cabarets!" Os fãs rebentam em coro no refrão: "Táxi! Táxi!" Em São Bento alguém grita "Olha o Sócrates ali à janela!"
Enquanto o eléctrico pára no tráfego, num cenário de lojas de velharias e cafés de bairro, a fadista seguinte, Fernanda Lemos, ergue o pescoço, os lábios como que a beijar o ar que respira: "Foi de saudades quem nega ou então devo estar cega de tanto esperar por ti!" O 28 rebenta em palmas e incentivos: "Lindo! Muito bem!" Por vezes, o som estridente do rolar do eléctrico nos carris abafa a voz de quem canta.
Na Calçada do Combro, os passageiros viajam encolhidos e comprimidos mas felizes, cantando a uma só voz. "Laralalalala... nananananana...", o 28 transformado num pedaço da Lisboa antiga das colinas. "Formamos todos uma comunidade", explica o fadista João Ponces, marido de Fernanda Lemos. "Vimos aqui por prazer. Apanhámos um ano que estava a chover, viemos ao final do dia, as pessoas entravam com os sacos das compras molhados... é sempre divertido!" Fernanda Lemos, que canta com ele na Esquina de Alfama e na Tasca do Careca, explica: "Nas tascas usamos o xaile, ficamos mais fadistas, e aqui a voz não sai como deve ser, com tanto balanço. Mas é uma alegria!".
Fado no 28 até 25 de Junho
O Fado no Eléctrico 28, uma iniciativa da EGEAC organizada no âmbito das Festas de Lisboa, começou na quinta-feira e prolonga-se até ao dia 25. Ao todo, passarão pelo 28 (Martim Moniz/Prazeres) 65 fadistas e 23 músicos (12 guitarras e 11 violas). Basta entrar no eléctrico entre as 16h e as 18h e as 19h e as 21h, conseguir um lugar e ouvir o mais genuíno fado castiço de Lisboa. Cada sessão de duas horas tem um elenco diferente. As próximas são já amanhã, dia 4. A primeira começa no Martim Moniz, às 16h, segue até aos Prazeres e regressa ao Socorro cerca das 18h. No eléctrico estarão os fadistas João Roque, Piedade Fernandes, Maria do Céu e Vítor Miranda, acompanhados pelos músicos José Martins (viola) e Mário Cotrim (guitarra). Das 19h às 21h, cantarão Ana Maurício, Luís de Matos, Manuela Dias e Lino Manuel, com acompanhamento de Eurico Machado à guitarra e Marco André à viola.
Site Official: www.egeac.pt
Fonte: PÚBLICO
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